Com 23 anos de sala de aula, Madalena recebeu em 2013 uma turma com 36 alunos da primeira série no Instituto de Educação Divina Providência. A tática costumeira de Madalena, de prestar atendimento individual, praticamente naufragou. Como ensinar cada um a ler e escrever de forma atrativa?
Clique na imagem abaixo para conferir os desafios, as condições de trabalho e as necessidades de qualificação para o educador ideal:
Uma das providências foi usar a criatividade. Sob quatro pilares atrativos às crianças — comer, brincar, animais e histórias —, foram desenvolvidos projetos com as letras do alfabeto. O lado digital da experiência prosperou na rede social Facebook, na qual os pais acompanham as atividades na aula com textos e fotos e interagem com sugestões e comentários. A ideia da fantasia de Fiona foi de uma mãe, com o objetivo de ensinar o uso dos dois erres na semana do Dia da Criança.
Professora de Capão da Canoa se fantasiou de princesa Fiona para alfabetizar os alunos
Foto: Arquivo pessoal
A esta altura do ano, somente seis integrantes da turma ainda não leem plenamente. As demais crianças estão em "nível de terceira série", empolga-se Madalena, que trocou horas de lazer e de convívio com a família pelo planejamento das aulas.
— O Brasil é um dos países em que os educadores são mais desvalorizados. Isso chega a doer porque um professor, quando faz seu trabalho com amor e paixão, move céu e terra — afirma.
Um estudo divulgado neste mês mostra que o Brasil é mesmo um dos países que menos valorizam o professor. Na pesquisa da fundação Varkey GEMS, realizada em 21 nações com 21 mil pessoas no total, o status do professor brasileiro está em penúltimo no ranking, com índice de 2.4 em uma escala de zero a cem, bem abaixo da média (37) e na frente apenas dos israelenses. O país oferece o terceiro pior salário, melhor do que Egito e China.
A desvalorização da profissão se reflete nas escolas. A professora de Educação Física Darlane Lúcia Barbosa da Silva Teixeira, 46 anos, se desdobra em três escolas. Rígida, ela impede a prática da disciplina com vestimentas inadequadas. Aí, enfrenta reclamações.
— Eles (os alunos) te enfrentam, te desafiam. Tem muitas barreiras para ser professor, precisa ter vocação e muita vontade — diz Darlane.
A formação dos professores, em geral, tem sido deficiente na aplicação da tecnologia à educação. Angela Dannemann, diretora-executiva da Fundação Victor Civita, ressalta a formação continuada dentro das escolas com o incentivo ao uso da tecnologia como uma forma de avançar nessa carência. Em países com melhores índices educacionais, a formação do professor é longa e rigorosa, parecida com a trajetória de um médico, o que valoriza a profissão.
— Como a gente enxerga a profissão no Brasil? Como um bico. Algo que qualquer um pode fazer. No entanto, é uma profissão complexa, uma das mais difíceis do mundo — argumenta a pesquisadora da USP e especialista em educação Paula Louzano.
A boa notícia está no desejo por mudanças expresso nos protestos de rua por melhorias na educação. Paula salienta que os governos deveriam tomar medidas como a revisão do modelo de ensino à distância para formar professores — que cresce muito no país — e investir em estágios obrigatórios e residências pedagógicas. Tudo agregado, obviamente, a um salário digno.
Exemplos bem-sucedidos na área de educação no mundo
CHINA
Melhor colocada em todo o mundo no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), Xangai tem liberdade para inovar e adaptar as rígidas regras do governo chinês e oferece uma educação de qualidade excepcional para os estudantes, inclusive os migrantes. A dedicação ao ensino é levada tão a sério que o Estado teve de criar leis para limitar as horas de estudo em casa. Tanto esforço tem bases históricas e culturais, principalmente na ênfase da educação como mecanismo de ascensão social ao longo da história.
FINLÂNDIA
Professor para entrar em sala tem, no mínimo, mestrado, e a autonomia é palavra de ordem. No Ensino Médio, os estudantes têm direito a escolher o que querem aprender. A carga horária não é exageradamente grande e a biblioteca é um dos passatempos preferidos. Em média, um estudante vai 12 vezes à biblioteca ao longo de um ano. A profissão é a mais desejada pelos jovens, mesmo sem oferecer os salários mais altos, e aos melhores profissionais cabe a tarefa de trabalhar nas piores escolas.
CHILE
Bons salários, premiação por desempenho, constante avaliação do ensino e participação da família influenciaram na nota final do Pisa. O sistema de ensino chileno, dividido entre escolas particulares, subvencionadas e públicas, diminuiu as diferenças entre o aprendizado dos alunos de distintas classes sociais. No Chile, o ministro da Educação é uma das autoridades de maior prestígio e costuma ser o nome forte para disputar as eleições presidenciais.
COREIA DO SUL
No início da década de 60, o país asiático estava no atual patamar de desenvolvimento do Afeganistão. Agora, aparece com uma das melhores notas no Pisa. As escolas têm rotina de oito horas, há rigorosa disciplina e o uso da tecnologia é aliada no aprendizado.
CANADÁ
Na última década, o governo vem concedendo aos estrangeiros com qualificação quase todos os direitos conquistados pelos canadenses, incluindo ensino de qualidade para seus filhos. Essa política foi adotada como forma de compensar a carência por profissionais especializados em função do envelhecimento da população e da baixa taxa de natalidade. Há monitoramento e nivelamento do desempenho das escolas, cooperação entre elas e incentivos para melhorar aquelas com baixo rendimento. Além disso, se tornar professor no Canadá pode ser extremamente difícil, e os salários são acima da média nacional.
Fontes: Índice Global de Status de Professores Varkey GEMS, A Atratividade da Carreira Docente no Brasil (Fundação Carlos Chagas), Recursos para uso de tecnologia em sala de aula (Fundação Victor Civita)